É uma grande festa no nordeste do país
Celebrado por tudo, mas parece que lá muito mais
Aqui no sul cai no forte do inverno
O símbolo principal, a fogueira, nunca falta
É referência
Se tem fogueira razoável já gritamos que é São João
Lembro de uma fase na minha infância que isso era bem divertido
Onde eu morava, na 72
Todo o bairro ainda estava se desenvolvendo em lotes dispersos ao longo das quadras
Se cada quadra coubesse 10 casas, tinham 5 no máximo
Mas toda quadra tinham casas
As ruas eram de terra
No inverno chuvoso virava um lamaçal sem fim
Mas nessa época de São João ainda estava seco
Como nessa época as crianças corriam livres pelo mundo, era realmente um "mundo" diferente
Tinha uma casa em especial
Eu nem se quer lembro onde era exatamente
Lembro que os pais, os adultos saiam pra trabalhar o dia todo
Ficava a irmã adolescente, uns 14, 15 anos e o irmão menor, acho que menos de 10 anos, em casa
O dia todo
A irmã, já botando hormônio pra fora do corpo pelos ouvidos
Saia nas tardes, após as aulas pela manhã e se ia ao mundo
O piá ficava literalmente solto o dia todo
Ele parecia um bicho
Sempre com poucas roupas nos dias frios, as vezes só de chinelo
Mas sempre se metendo nas brincadeiras na rua com qualquer turma
Lembro de um desses dias soltos que ele caiu de bicicleta na rua
A rua de terra, ele deve ter se ralado de leve, mas o susto o fez chorar
Uma mulher mais velha, devia ter uns 60
Que naquela época ela parecia ter 300 anos anos
Foi ajudar aquela "pobre e inocente alma" na rua
Chorando, suja e assustada
O guri só gritava, inclusive com a velha, ao mesmo tempo que chorava:
"Sai daqui seu cagalhão!"
Era engraçado de ver a criança agressiva ao receber o mínimo apoio
De tanto ser largado, talvez nem reconhecesse ajuda quando tinha
E a velha decepcionada ao ver que quase foi agredida ao tentar faze o bem
A vida era essa
Parecia que sempre seria assim
Sobre essa mesma casa, certa vez
Lembro muito vagamente
Alguém me convidou pra ir atirar pedras no telhados deles
Parece que a irmã estava lá dentro dando pra algum malandro da época e o pivete trancado no banheiro aos gritos
Eu não ia atirar pedras, mas fui pra ver a cena
A casa era mais baixa que a rua
Tinhas mais uns 6 da redondeza em frente a casa
Atirando pequenas pedras do chão, da rua, no telhado da casa
As pedras eram bem pequenas, não iam quebrar as telhas
Mas faziam barulho dentro da casa, pois se ouvia de fora
Se ouvia de longe os gritos da criança
Parecia mesmo estar trancada lá dentro
Mas não ouvi ou vi mais nada fora isso
Lembro que fui até lá, vi a cena e voltei pra casa
Aquilo era uma tarde normal
As crianças se reunirem pra atirar pedras no telhado de algum vizinho era algo "saudável"
Hoje repensando tudo isso
Na real era tudo selvagem
A 72 selvagem
(Bom nome)
72 era o número da parada dos ônibus que vinham da capital
Isso foi demarcado quase 100 anos antes desses fatos e ninguém mais sabia pq os números eram esses
Pq a menor parada era a 47?
E o resto? Não fazia sentido...
Na época ninguém sabia mas inventava muito
Kms de algum lugar, população, números de bairros... lendas urbanas dos anos 90
No inverno tinham as férias escolares
Se com meio turno ocupado o lazer era apedrejar alguma casa
Imagina com o dia todo livre!
Cada quadra tinha no mínimo um terreno baldio que virava campinho
A turma daquela rua se reunia ali e o futebol sempre acontecia
Com regras próprias ou inventadas na hora
Mas no fim, devido ao frio forte e constante
Ficávamos mais por casa
Brincando no seu mundo particular, em casa, no "pátio"
Isso eu tinha menos de 11 anos com certeza
Pois com 11 sai daquele casa que morei com meus pais e meus avós maternos
Mesma casa onde eu e todos os meus primos crescemos em alguma etapa da vida
Orgulho do meu vô ter o máximo possível de nós por perto
Morei com eles até meus 11
E isso foi antes, eu tinha 9 anos
Inverno de 1993, Gravataí RS
Era frio de assobiar no pescoço
Todos os campinhos a cada 3 ou 4 quadras
Organizaram a fogueira de São João
Aqui no sul quase todos as casa tinham Sinamomo
É uma árvore boa pra fazer sombra no verão
Cresce rápido e as mudas estavam pra todo lado
No começo do inverno se poda quase toda ela
Deixando só os caules principais
A árvore praticamente hiberna
O tronco quase morre
Na primavera ela renasce
Cresce de novo muito rápido e faz uma boa sombra
Podada no começo do inverno, em uns 30 ou 40 dias
Os galhos cerrados
Que pareciam isopor por dentro, estavam bem secos
Lenha perfeita para a fogueira
Se colocava um "mastro" principal na fogueira
Algum tronco ou galho mais grosso
Acho que nessa vez era um pedaço de poste, inclusive
Bem firme, no meio, pra sustentar todo o resto
Todo e qualquer galho ou tábua que tivesse pela volta
Resto de obra, resto de demolição, móveis velhos
Tudo era escorado naquele mastro
Isso bem no meio de onde era o campinho onde jogamos bola o verão todo
Tinha espaço seguro na volta
O fogo jamais sairia de controle
Casa mais próxima a uns 50 metros
Tudo era escorado pela viga de guia
Depois de tudo ali acumulado
Pra dar firmeza em tudo
Sempre se tinham alguns pneus
De carro ou qualquer outro tipo
Colocávamos por cima de tudo
Encaixado no topo
Olhando de longe parecia uma tenda indígena, com um pneu segurando tudo por cima
Em baixo, na copa, eram colocados todo e qualquer papel ou papelão que tivesse a disposição
Tudo era arranjado e organizado num sábado
Sempre tinha geada naquele amanhecer
A gente acordava no gelo e dormia no fogo
Ao longo do sábado toda a fogueira era organizada
Vários pais e adultos ajudavam as crianças da rua nisso
Era organizado organicamente
Terminada a obra de montar a fogueira antes das 17hrs
Pois antes das 18hrs já estaria noite no inverno
Todo mundo ia pra casa tomar banho pq as 19hrs seria acendida
Casa, banho, muitas roupas e lá vamos nós
O campinho era na esquina e nós morávamos no meio da quadra
Dava uns 50 metros ou menos
Eu lembro que fiquei do outro lado da rua, vendo a vizinhança chegando
Eu estava com uma calça de moletom azul e um blusa de lã laranja com gola alta
Provavelmente de tênis, mas não lembro desse detalhe
Fiquei na minha, tímido como sempre
Mãos no bolso
Vendo aquela escultura enorme que eu ajudei a fazer
As crianças fizeram 90% do esquema, mas todos vieram ao menos dar uma olhada
A comunidade era minimamente unida
Isso para os olhos de uma criança de 9 anos
Povo chegou e começou
Tinha um adolescente da rua que veio bem arrumado
Alguém disse que ela ia no bailão depois da fogueira
Ele chegou perto e tocou fogo no papel, bem embaixo
Uma fagulha e todo mundo viu o fogo subindo
As labaredas iam lambendo os gravetos
Tentavam subir mais e mais
Fazia força com aquela escalada
O papelão que estava embaixo estava 100% em chamas
Ainda estavam chegando pessoas e o fogo só aumentava lembro de estar emocionado vendo aquilo, o fogo e as pessoas chegando
"Poxa, eu fiz isso tmbm..."
Foi legal
Vi a irmã do fera chegando com algum namoradinho da noite
O pivete não sei onde estaria nesse momento
O Galato estava ali
Ele tem 1 ou 2 anos a mais que eu
Morava numa casa bem em frente do terreno baldio que era o campinho onde fizemos a fogueira
Ele foi goleiro do grêmio tempos depois
Eu tmbm gostava de jogar como goleiro, pq corria menos
Mas claro que nunca me empenhei nisso
Ele sim
A Rose Cavalo era jovem mas estava ali
Ela tinha esse apelido-sobrenome de cavalo pq a família dela, s irmãos e o pai
Eram carroceiros
Nem sei bem se isso era uma profissão da época
Mas era o que diziam
Josias estava ali
O Bola (que era magro)
Tobias
Genésio
Caetano
Charuto
Cueca
Renato pai e Renato filho
Esses clássicos da época
Todos da rua que jogavam bola naquele campinho estavam ali vendo o fogo
Lembro que estava bem frio, o calor chegava em mim mesmo estando longe
E tinham vários só de chinelo
"Esses são os pobres"
Lembro da minha mãe falar isso
Achando que nós não éramos pobres
Pq tínhamos comida em casa e uma TV preto e branco
Eu tinha tênis e meia
Meu cabelo cortado igual índio era um luxo
Eu gordinho, bochechas rosas queimadas do vento frio
Cabelo liso e cheio
Cortado igual uma tijela
Cachopa Lisa
Lembro de ficar olhando o fogo subindo e ficar bem feliz
Foi quando o fogo subiu
Subiu
Chegou nos pneus do topo!
Pneu pega fogo muito rápido
No meus anos futuros de sindicalismo isso foi bem lembrado
A labareda estragava os galhos secos de Sinamomo
Chegou ao topo
Pegou nos pneus
A labareda quase dobrou de tamanho rapidamente
Lembro de ver a nuvem pretaa e espessa subindo, enquanto a própria luz do fogo iluminava
Outro detalhe curioso da época e da região
Postes com lâmpadas que funcionassem eram raros
Um por quadra, quando não queimavam e assim ficavam por muito tempo
Então a fogueira tmbm iluminava e podia ser vista de longe
Ao menos a luminosidade era vista a muitas quadras
Assim como nós vimos algumas de muito longe
Ver aquela nuvem negra de fumaça indo ao céu e iluminada por baixo era muito emocionante
O fogo era lindo e hipnótico
A viga principal começou começou empenar
Estava com o topo pesado e queimando rápido
Assim como ela queimava e enfraquecida
Os pneus de cima que davam peso tmbm queimavam
Ela entortou um pouco e logo de estabilizou de novo
O fogo se firmou por um tempo
As famílias conversavam entre si um pouco
Minha família nunca teve grandes problemas com os vizinhos
Mas tmbm nunca tiveram grandes assuntos
Amizades, jamais
Se toleravam bem e apenas isso já bastava
O fogo seguia
Já passou da metade
Começou a enfraquecer
Aos poucos o pessoal começou a ir embora
Uns e outros iam saindo de fininho
Eu sentei na grama gelada
Ca calçada em frente ao fogo
Calçada do Galato
De repente, a torre caiu
A alma da fogueira queimou 100% e tudo desmoronou
Todos presentes gritaram ou assoviaram alto
Quem já estava indo, descendo a lomba, olhava pra trás pra ver
Os cachorros de todo o bairro responderam com uivos
Foi lindo e emocionante
O fogo foi baixando e todos forma indo
Quando dava outro barulho eles olhavam pra trás
Mas seguiam suas vidas
Era um sábado a noite, bem frio
Muitos ali dormiriam cedo
O adolescente que acendeu a fogueira se foi ao bailão
Todos foram embora
Eu já teria ido, mas minha mãe ficou de papo, (milagrosamente), com algum vizinha
Logo me chamou
Eu orgulhosamente fui um dos ùltimos a ir embora naquela noite especial
Eu queria ficar mais, mas o pouco fogo nem aquecia mais
Fui levado embora
2 casas ao lado
Lembro que nem 22hrs eram ainda
Mas carreguei troncos e pneus o dia todo
Já tinha comido
Me aqueci e deitei
Pensei em como seira o próximo ano
Isso tudo foi em 1993
Não teve próximo ano
Em 1994 foi o tetra e ninguém pensou em mais nada fora isso
1995 eu me mudei
Pra perto, mas eu com 11 ano achava tudo aquilo "criancisse"
O povo cresceu, acabaram as fogueiras
Muitos campinhos viraram novos lotes
O bairro lotou
Naquele campinho em especial era um terreno destinado a "Associação do Bairro"
Nunca teve nada ali
Nem associação de bairro, nem ocupação, nem nada
Nem se quer era usado como campinho mais
Corta pra 2023
30 anos depois, muito mudou
A casa onde meus avós viveram e morreram estava podre
Todos os netos cresceram ali já estavam adultos e tocando suas vidas
Eu inclusive
Hora de demolir e fazer outra
Fazer o ciclo da vida se seguir
Missão pra mim, com meus 39 anos
Meu filho com 18
E a filha do meu primo, a Esquimó, tinha uns 10
Durante o dia todo arrancamos tábuas, portas, janelas
Tudo que pudéssemos da casa
Levamos tudo pro campinho
Isso no verão, fevereiro, de muito sol o dia todo
Nós 3
Levamos e amontoamos tudo no campinho o dia todo
Quando escureceu fomos lá e botei fogo
Mesma sensação 3 décadas depois
Meu filho mais velho do que eu estava na época, igualmente hipnotizado
Mas foi legal ver a Esquimó com o olhar brilhante vendo o fogo queimar a casa que ela ajudou a demolir
Nós 3 hipnotizados pelo fogo novamente
Ficamos ali até tarde da noite, vendo tudo queimar
Lembro que minha mãe trouxe água gelada já era quase meia noite
Igor, meu filho, visivelmente cansado e muito sujo seguia firme comigo
A Esquimó veio falar comigo
"Posso ir descansar?"
Ela estava destruída de cansada
Com 10 anos, nas férias escolares
Dever ter carregado táboas umas 16hrs no mesmo dia
Aguentou bem por ter nosso sangue que não é muito afeito ao trabalho
Acho que fiz tudo ficar divertido
Funcionou!
"Descansa que amanhã tem mais."
Ela se foi
Igor foi com minha mãe, se lavar, eu levaria ele na casa da mãe dele antes de ir embora
No bairro vizinho
Fiquei mais uns minutos sentado na grama seca
Sozinho
Olhando fixamente ao fogo da casa que eu cresci dentro
Foi um belo ritual de passagem
O pessoal que viu em 1993 não estava ali, só eu
Mas garanto que ficariam orgulhosos de mim de novo
A 72 foi selvagem por uma noite mais!
Nenhum comentário:
Postar um comentário